segunda-feira, 24 de junho de 2013

Rapa Nui, ou o umbigo do mundo


Papai realizou um antigo sonho quando aterrissamos na Ilha de Páscoa, após um longo vôo de Santiago. Desde que ele vira os moais na capa do livro Eram os Deuses Astronautas? pela primeira vez, ainda na sua infância, ele tinha o desejo secreto de conhecer este lugar que parecia tão misterioso.



A Ilha de Páscoa, ou Rapa Nui, fica perdida no meio do Pacífico, a mais de 2.000km do local habitado mais próximo. Mas não havia como me sentir isolado com tanta gente me acompanhando: além do papai e da mamãe, vovô Manoel, vovó Carmem e tia Iau! A nossa recepção no aeroporto foi no estilo polinésio, com direito a um colar de flores no desembarque. O aeroporto, apesar de possuir uma pista tão longa que permitiria até o pouso de um ônibus espacial, é minúsculo e recebe apenas um vôo por dia.



Que vista da nossa varanda!
Nosso anfitrião, Christophe, é um francês que trocou Paris por Hanga Roa, a única cidade da ilha, há 20 anos atrás. Sua pequena pousada fica bem de frente para o mar, e aos pés do vulcão mais belo da ilha. Ele faz de tudo para nos deixar à vontade, e foi com ele que alugamos um pequeno jipe para as nossas aventuras. Começamos exatamente pelo nosso vizinho, a fabulosa cratera do Rano Kau. Estávamos seguros, já que a última erupção foi há 10.000 anos atrás!


A caverna de Ana Kai Tangata ficava bem em frente à nossa pousada



Nas encostas da cratera ficam as ruínas da cidade sagrada de Orongo, onde há muitos séculos atrás os antigos habitantes disputavam a prova do homem-pássaro. Nesta prova, retratada no filme Rapa Nui, aquele que primeiro descesse a encosta de 200 metros de altura, atravessasse os quase 1.400 metros de mar e trouxesse os ovos de pássaros da ilhota vizinha tornava-se líder na ilha.

Olhem a cratera do vulcão!

Mas e os famosos moais, quando os veríamos? Bem, no mapa da ilha tudo que começa com Ahu sinaliza a presença deles – e são muitos Ahu! Nosso primeiro contato foi em Ahu Akivi, onde estão os únicos moais voltados para o mar (todos os outros são voltados para a ilha). Não haveria como ter sido melhor: apenas nós e as gigantescas estátuas, o céu coberto de nuvens cinzentas e o vento gelado do Pacífico. Só faltava o OVNI descer! O tempo melhorou um pouco, mas as nuvens não chegaram a comprometer o pôr-do-sol em Ahu Tahai, onde estão os moais mais próximos da cidade e o único que tem os olhos pintados.






No dia seguinte desbravamos o litoral leste da ilha. Fomos surpreendidos em todos os aspectos: a pequena pista, cruzada por raríssimos carros, nos conduzia por uma paisagem indescritível, por entre vulcões extintos, cavalos selvagens e as ondas do mar que quebravam nas pedras negras. Nossa primeira parada foi em Rano Raraku, ou a “fábrica” de moais. Ali as estátuas foram produzidas num ritmo alucinante até meados do século XVII, ficando cada vez maiores e mais detalhadas. A maior parte do corpo das estátuas está soterrada, e as suas cabeças representam apenas um terço do seu tamanho. Ali pertinho conhecemos talvez o local mais belo da ilha, em Ahu Tongariki. Quinze enormes moais enfileirados em frente ao mar, com um vasto gramado em frente onde corri, pulei e rolei até cansar.









Voltamos para Hanga Roa, pois apenas aqui encontramos os poucos restaurantes da ilha. Tenho que fazer alguns comentários sobre a culinária local: vovô descobriu que adora ceviche, o papai que adora uma cerveja tahitiana muito vendida por aqui e a tia Iau não dispensa o expresso depois do almoço (mas isso eu já sabia!) Aliás, não há na ilha melhor lugar para se fazer o “momento café” do que no mikafe, de frente para o pequeno porto. Ali também está o melhor sorvete artesanal da ilha. Apesar de poucos, os restaurantes são muito bons e gostamos particularmente do Te Moana, com decoração descolada e vista para o mar. Variamos bastante, pois todo dia almoçamos num local diferente! O jantar ficava por conta da vovó Carmem, mamãe e tia Iau, que preparavam macarronadas deliciosas no nosso chalé.



Como na Ilha de Páscoa a influência polinésia é muito forte,  a típica dança daqui se assemelha muito com o que conhecemos por dança havaiana. No sábado à noite fomos à uma apresentação do Ballet Kari Kari, onde vi índios guerreiros batucando um sem-número de tambores e dançarinas com colares e saias de palha. Acho que vovô Manoel escolheu a primeira fileira já na expectativa de ser escolhido para subir ao palco, o que acabou acontecendo de verdade! Foi impagável vê-lo ensaiando os seus passinhos em meio aos dançarinos rapanui!




Nosso último dia foi reservado para conhecermos a única praia da ilha. Distante pouco mais de 13 quilômetros da cidade, trata-se de uma pequena amostra do que são as paradisíacas praias da Polinésia. Mas há aqui um charme especial conferido pela fileira de moais guarnecendo a estreita faixa de areia, os mais bem esculpidos de todos. Não ha outro lugar do mundo como esse, e a água gelada não nos impediu de dar um mergulho no Pacífico.









Nosso último jantar foi no único restaurante japonês da ilha, tão pequeno que possui apenas duas mesas. Também pudera, no Kotaro o dono e chef prepara até mesmo a massa do macarrão. Papai finalmente comeu os famosos sushis da Ilha de Páscoa. Vovô fez falta, mas como era domingo à noite teve que ficar no nosso chalé cuidando da cama e de uma taça de vinho chileno.



Estes poucos dias distantes de tudo foram certamente inesquecíveis. Nossa intérprete impecável (titia Iau) deu um show falando do espanhol ao francês. Mas papai e vovô também não ficavam atrás, o primeiro desenferrujando suas aulas de espanhol com muita mímica e o último com seu portunhol que sempre resolve. Olha, estou ficando mal-acostumado com tantas viagens maravilhosas! 


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